quarta-feira, 28 de maio de 2014



UM LINDO JOVEM


Eu o vi num ponto de ônibus da Paulista. Um violão embaixo do braço. Olhos azuis quase na tonalidade de meu filho caçula.
Alto. Tão alto quanto meus filhos.
Ele entrou no mesmo circular que eu entrei e se identificou como um jovem de origem Argentina. Se propôs a cantar e tocar uma cantiga regional de sua terra.
Ele começou. Fechou os lindos olhos e a voz se elevou.
Todos, em silêncio, ficaram a ouvi-lo.
A voz era linda, forte, quente. A cantiga tinha algo que me carregava para outro lugar.
Também fechei meus olhos e fiquei a ouvir.
Como é engraçado o mundo. Um jovem para ganhar uns tostões se propõe a trazer um pouco da sua cultura para pessoas estressadas, cheias de problemas, que tomam um circular e só desejam ficar em paz. Para outras que estão enamoradas, outras desanimadas. Aquelas pessoas anônimas, em silêncio, ficavam a ouvir e pensar de tantas formas diversas.
Quando ele terminou senti desejos lhe dizer que era lindo aquilo, mas só me limitei a bater palmas.
Logo em seguida ele nos disse que cantaria outra e em silêncio respeitosamente ficamos a ouvir.
Eram suas raízes expostas ali, em pleno centro da grande cidade.
Mais palmas e os agradecimentos.
Alguns, na medida de suas possibilidades lhe entregaram uns trocados e ele desceu logo em seguida. Faria a mesma coisa num outro circular até que conseguisse uma quantia razoável, pensei.
Ele precisa ganhar a vida, se sustentar. Viver, sobreviver. Mas é lindo e entrega-nos por tão pouco sua graça, sua música.
Eu particularmente achei tocante aquilo. Imaginei-me tão jovem como ele levando a minha arte para ser conhecida numa terra estranha.
É necessário coragem para tanto. É necessário que se tenha muita coragem e o peito aberto, porque os obstáculos que ele enfrenta são tantos. É um desbravador. Talvez fique o resto da vida por aqui. Constitua família.
Como meus avós fizeram um dia...
Minha avozinha contava da viagem que fizera de navio da Itália para cá, as coisas que passaram, a sensação de se chegar numa terra desconhecida falando e entendendo outro idioma, tendo costumes tão diferentes.
Eu amo o Brasil e agradeço aos meus antepassados o fato de terem vindo para cá. Gostaria de conhecer a Europa também, porque de alguma forma sinto que tem a ver com minhas origens, mas amo esta terra onde nasci e me criei.

Tudo isso eu pensei enquanto ouvia aquele jovem cantar e tocar. Que os continentes se irmanam aqui no Brasil, porque esta mistura de raças nos permite que vivamos num país que passa a ser nosso.

sonia delsin 

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