quarta-feira, 28 de maio de 2014



UMA VIAGEM PARA O INFINITO


─ Pai, me compra uma passagem?
─ Uma passagem para onde, minha filha?
─ Para o infinito. Não deve existir nada mais bonito que o infinito.
─ Filha. Não há como comprar esta passagem.
─ Mas eu queria tanto...
Eu me debrucei na mureta da varanda. A conversa não existiu senão em meu pensamento. Não podíamos nos falar. Meu pai já pertencia a outro tempo. Ele partira levando consigo as palavras que enchiam o meu coração.
Olhei o jardim lá do alto e tudo estava tão bonito. As flores na exuberância da primavera. Os colibris em festa. Borboletas a voar. Um bem-te-vi a gritar. Ao longe, bem ao longe o canto de um sabiá.
Este canto trazia meu querido pai diante de meus olhos. Ele os amava intensamente. Lembrei-me das gaiolas. Um longe do outro. Um não podia ver o outro, ele dizia.
A casa grande e os jardins permitiam que se tivesse uma gaiola em cada ponto estratégico.
Comecei a recordar as fezes dos sabiás formando montinhos no fundo da gaiola. Estalagmites me pareciam. Dizia ao meu pai e ele me pedia que ajudasse a limpar, porque para os pezinhos da ave fazia mal pisar nos próprios excrementos.
─ Pai, este bestinha tombou a vasilha de água.
─ Coloca para mim. Eles não podem ficar sem água.
─ Por que não os solta?
Arrependia-me imediatamente da pergunta. Nos olhos dele via certa angústia.
Ele os amava e tratava-os tão bem. Mas eram prisioneiros, eu pensava.
Um dia ele os soltou. Um a um. As gaiolas foram retiradas e no lugar a minha mãe colocou umas flores.
Eles apareciam volta e meia para cantar sobre a jabuticabeira, e muitas vezes desciam ao chão. ─ Vamos até a Santa Cruz de Estrela, minha filha?
─ O que quer fazer lá, pai?
─ Eu gosto de lá. Sinto-me bem caminhando pelas ruas calmas do vilarejo.
─ Então vamos.
Frases como esta eram corriqueiras:
─ Pare o carro aí, quero ver umas abelhas.
─ Pare um pouquinho, quero ver estas plantas. Nossa, que flor mais bonita! Vamos levar, sua mãe vai gostar.
─ Vamos tentar entender o relevo. Pare o carro. Quero observar aquele vale.
─ A natureza é muito bonita. É a vida da gente.
Ele me mostrava cada detalhe. Estivemos um dia a observar o desenvolvimento de um cacho de marimbondos. Chegamos a usar o binóculo para isso. Era uma coisa fantástica de se olhar.
Pensei hoje no quanto ele amava a terra e no quanto a amo também. A chácara onde nasci era sua paixão e a minha. Muitas vezes senti desejos de comprá-la, mas nunca tive posses para tanto.
Eu a guardo no coração como uma relíquia e sempre desejei ser cremada e que minhas cinzas fossem jogadas sobre aquela terra.
Sei que isto é inviável, mas é um desejo.
Um desejo que é quase certo que não se realizará, pois estão transformando a terra onde nasci. Disseram que tudo vai ser loteado.
Talvez muito em breve residências estarão cobrindo os recantos onde passei tantas horas felizes.
Imortalizada ela está em minha alma. Não importa que o moinho não mais exista. O som dele ainda mora em mim. Não importa que hoje em dia eu nem veja as jabuticabeiras. As flores... aquele perfume no ar... era um perfume doce. O zum zum das abelhas ainda posso ouvir. Eu os ouço com os ouvidos das lembranças, e estas ninguém destrói.
Quero guardar para sempre em meu coração a minha terra, as conversas que tivemos, o que apreciamos juntos e nossas trocas de olhares.
Mesmo que hoje ele não esteja aqui eu sei que estivemos juntos um bom tempo e foi tão bom. Ele me ensinou que a paz e a felicidade estão nas pequenas coisas da vida. Nas pequeninas coisas.
─ Sabe, pai. Eu faço parte do infinito. Você faz... nós fazemos. Tudo isso que vivemos é um grande sonho. Um grande sonho, não é?

sonia delsin

Nenhum comentário:

Postar um comentário