quarta-feira, 28 de maio de 2014



EU VOU LHE FAZER UMA SURPRESA


Estou preparando uma surpresa para alguém muito especial.
Não quero nem que ela imagine o que estou pensando fazer.
Vou ligar um dia e dizer que estou bem próxima e que a quero ver.
Vinte e dois anos que não nos encontramos.
Tantas cartas nestes vinte anos.
Tantas!
De vez em quando uma fotografia.
─ Para que veja como estou agora.
─ Veja como estão minhas filhas.
─ Esta é de minha casa.
Tantos anos!
Tanto carinho.
Eu ando quieta. Não ligo. Não escrevo.
Quero que ela se surpreenda com meu telefone.
─ Estou aqui. E a quero ver.
Como será reencontrar alguém que guardamos no coração e não vemos há mais de vinte anos?
Não sei como reagiremos.
Ficaremos nos falando sem parar? Haverá tanto assunto depois de tanto tempo?
Sei que a guardo no peito e que sempre senti desejos de revê-la. Sempre.
Agora vou me dar uma chance de fazer isto antes que seja tarde demais para nós duas.
Fico recordando aqueles anos que estivemos juntas. Éramos amigas, quase irmãs. O tempo nos distanciou. Mas ele pode permitir uma reaproximação.
Quero vê-la, nem que seja mais uma vez na vida. Quero ver se seus olhos são os mesmos de antes.
Se haverá ainda aquela reciprocidade que nos unia quando éramos jovens.
Desejo reencontrá-la para matar saudades. Para sentir o prazer de uma companhia que sintonizava com minha alma.
Desejo lhe falar. Dar um abraço apertado. Conhecer as meninas. Quem sabe abrir o coração como naqueles tempos.
A vida nos distanciou de alguma forma, mas por outro lado nunca ela conseguiu destruir a amizade que nasceu num tempo tão difícil. Num tempo em que a Jô enfrentava o mundo com suas poucas armas e eu tentava abraçar um sonho que me fugia.
Quantas vezes debruçadas numa janela nós duas ficamos quietamente observando a cidade e as palavras não saiam, mas nós duas sabíamos o quanto doía a solidão de cada uma.
Estou feliz acalentando o sonho de revê-la. Estou ansiosa porque sei que vou tentar resgatar um tempo que já passou.
Mas se no passado dormem sentimentos tão intensos por que não resgatá-los?
Eu vou surpreendê-la. Eu sei que vou. Porque sempre achamos que nosso tempo se acabou.

sonia delsin

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