quarta-feira, 28 de maio de 2014



AS QUEIMADAS DE TATURANA

Como fui criada no campo estive sempre em contato com a natureza, com os animais e com toda sorte de insetos.
Mandruvás e cobras viviam por lá. Os besouros eram tão bonitinhos. Lagartos e gambás também apareciam sempre.
Corujas e morcegos... De tudo existia um pouco e eu estava tão acostumada a tudo aquilo.
Aos seis anos fui picada por um enxame de maribondos. Quase morri.
Fiquei tão inchada que uma tia comentou que foi a única vez na vida que fiquei um pouco mais gorda.
Os animais e os pássaros foram sempre a minha paixão.
Caminhava descalça e vivia procurando nem sei o quê. Gostava de explorar cada canto.
Meu pai vivia dizendo à minha mãe: ─ O que tanto busca esta menina?
Eu buscava a vida que via em cada pedacinho da chácara. A vida que sentia vibrar ao meu redor. Necessitava extremamente do contato com tudo aquilo para guardar para sempre em minha alma.
Não me esquecerei jamais das coisas que toquei, o que senti.
Meus gatos. Eu dormia com cinco ou seis. Adorava tê-los no colo. Sentir a maciez dos pêlos. Ouvi-los ronronar.
Tudo me encantava. As plantações, o cheiro no ar, a casa, o rancho, o paiol, o moinho, o regato, o som da pequena cachoeira, o ranger dos bambuais. O som da porteira se abrindo. O caminho lindo... os jardins. As jabuticabeiras em flor.
As amoreiras me encantavam. Seus galhos leves, o vento nelas. As frutas que me sujavam toda.
Minha mãe vivia nos alertando que em seus galhos se escondiam taturanas. E eu me importava com isto?
Quantas vezes elas me queimaram e eu parecia não aprender, porque tudo fazia parte.
As folhas de urtiga também me queimavam. Os arranha-gatos me feriam.
Nada disso parecia me atingir, porque eu precisava provar de tudo um pouco, a dor e o prazer.
Era um pouco selvagem como o lugar que vivia e sentia a necessidade de ser parte integrante da natureza.
Muitas vezes andei repetindo que gostaria que me cremassem e jogassem as minhas cinzas sobre aquela terra onde fui criada.
Sei que tudo está mudado e que ainda ocorrerão mais mudanças, mas o que guardo n’alma não se apaga jamais.
Recordo as queimadas de taturana como se estivesse agora com as bolhas na pele. E recordo momentos lindos. Recordo o balido das cabras.
Recordo quando se matavam os porcos. Como gritavam. Eram gritos pavorosos e foi necessário parar com a criação deles, por minha causa. Ficava doente cada vez que se matava um. Sei hoje em dia que eles guinchavam e não gritavam como eu dizia.
Não lamento nada do que vivi. Sei que meu espírito necessitava de tudo que passei. As coisas boas e as ruins.
Não lamento a aprendizagem dolorosa de meu caminho. Não aprenderia nada se não fosse assim.
E as coisas bonitas, eu guardo num canto de meu coração. Corro a elas quando a realidade fica difícil demais. Estas lembranças me renovam. Busco nelas a força e a coragem de uma menina que nunca desejo que morra em mim.


sonia delsin

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