UM SIMPLES PAPO
Algumas
vezes resolvo deixar o carro na garagem e saio de circular. Percorro todo o
centro comercial da cidade, vou aos bancos quando preciso, vejo vitrines e
depois me dirijo a um ponto de ônibus. Existe um que particularmente gosto de
ficar.
Nele há uma
senhora de origem nordestina que fica o tempo todo fazendo crochê e vendendo as
peças já concluídas. Ela tem um varal estendido com muitas peças e os valores
afixados sobre elas.
Este ponto
fica defronte a um banco e está localizado num lugar bem movimentado da cidade.
Também ali
costuma ficar um rapaz gaúcho.
O rapaz
vende doces (canudinhos). É um rapaz simpático e vive a conversar com a senhora
nordestina e também com todas as pessoas que estão a esperar o circular. Ele
fica quase todo o tempo andando de um lado para o outro oferecendo seus
docinhos.
Eu os vejo e
fico a observar tudo porque gosto das pessoas. Gosto de ouvi-las conversando.
Ela já é uma
senhora idosa e muito conversadeira.
Hoje me
sentei ao seu lado e ela puxou papo comigo. Eu gosto de ouvir, gosto mesmo.
Fiquei
ouvindo-a e ela me contou que muitas vezes passa o dia todo sentada sobre uma
almofadinha naquele banco de concreto, e não vende uma peça sequer.
O rapaz
vende os doces. Bem, os doces são baratos, as pessoas estão famintas muitas vezes,
e acabam comprando. Já as belas peças são mais difíceis de serem vendidas.
Ela começou
a me contar coisas. Contou que gosta do movimento do lugar. Que se sente bem em
estar entre as pessoas, que gosta de conversar.
Ficamos
naquele papo furado, fiquei olhando-a e pensando no que deve ter passado. Nos
filhos que teve. Na casa que fica o dia todo sozinha, sem a dona...
São coisas
da vida.
Pensei que
na sua idade muitas mulheres já nem saem de casa sozinhas.
A vida se
apresenta a cada pessoa de uma forma diferente.
É necessário
que estejamos entre as pessoas, conversando com elas para entendermos melhor os
seres humanos. Muitas vezes pessoas simples como esta senhora e este simpático
rapaz de olhos azuis nos trazem muitas respostas. Elas nos abrem os olhos para
a realidade.
Um papo
informal pode nos fazer tanto bem quando nos propomos a ouvir com o peito
aberto, com uma vontade verdadeira de alcançar a realidade do outro.
O que parece
ser uma simples conversa muitas vezes não é. Principalmente se depois dela nos
pomos a refletir...
sonia delsin
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