quarta-feira, 28 de maio de 2014



ISTO NÃO SE FAZ...

Estes dias aconteceu um fato que muito me chateou. Algo que não deveria jamais acontecer e que vive acontecendo, infelizmente.
Bem, eu vou contar tudo para que vocês entendam porque me entristeceu e também me revoltou.
Uma senhora bem idosa, na verdade ela já passou dos oitenta e cinco anos e um senhor de idade aproximada conviveram vinte anos numa relação muito carinhosa.
Ela enviuvara muito jovem e se dedicara aos sete filhos. Tivera uma vida difícil e um dia reencontrara um antigo namorado (na verdade ele fora o seu primeiro namorado), que também estava viúvo. Resolveram se unir e viveram longos anos harmoniosamente.
Dava gosto de vê-los juntos. Eram tão companheiros.
Ela era na época que se reencontraram uma mulher robusta ainda, de sorriso sempre pronto e ele um senhor acanhado. Formavam um grande contraste, mas na convivência eram maravilhosos.
Sempre a quis bem e senti desejos de lhe beijar e apertar as bochechas quando me aproximei dela, porque ela sempre foi uma pessoa deliciosamente autêntica.
O sorrisinho dela e os olhinhos me inspiraram sempre muita ternura.
Eu os via conversando e pensava como o mundo pudera providenciar um reencontro entre dois namorados.
Os anos passaram e eles envelheceram juntos. Conversavam tanto. Dava gosto de se ver.
O passar do tempo foi enfraquecendo-os e adoecendo-os.
Um dia fiquei sabendo que ela não andava nada bem de saúde. A dele também não andava lá estas coisas.
Ela foi piorando, piorando...
A mulher trabalhadeira e organizada já não dava mais conta dos trabalhos domésticos.
Também me contaram que havia uma mulher ajudando-a na limpeza da casa. Ela fazia questão de cozinhar ainda.
Depois soube que os dois não poderiam mais ficar sozinhos, porque um não podia mais ajudar o outro. Ela estava necessitando de cuidados especiais.
Aí é que as coisas começaram a acontecer de uma forma que me desagradou, me enervou e me entristeceu.
Os idosos deviam ser mais respeitados, eu penso.
Os filhos dela decidiram separá-los. Eles se propuseram levá-la para a casa de uma filha e avisaram a família dele que devia buscá-lo.
Segundo me contaram, ela não queria ir, sentou-se numa cadeira e disse que não sairia de seu cantinho. Que só a levariam à força.
Sei que por fim a levaram e o filho dele também o levou para sua casa em outra cidade.
Dias depois ela adoeceu seriamente e esteve hospitalizada. A partir de então não reconhece as pessoas, não se levanta mais e está com a filha. Enquanto ele está vivendo com o filho, a nora e os netos.
Eu penso que sua mente se recusou a aceitar esta forçosa separação e o seu estado de saúde piorou tão drasticamente porque o seu ser quis fugir da realidade.  Ela se recusou a aceitar uma situação que lhe impuseram e não aguentando a distância que a submeteram do companheiro de tantos anos, o afastamento da casa que ela sempre amou, sua mente apagou as lembranças todas.
É doloroso tudo isto. Não gostaríamos de ver as pessoas agindo desta forma, mas acontece e ficamos impotentes diante dos fatos.

Mas que dentro da gente dá uma vontade grande de gritar, isto dá. Uma vontade de ver tudo modificado, uma vontade de ver o ser humano agindo de uma forma mais humana. 

sonia delsin

Nenhum comentário:

Postar um comentário