quarta-feira, 28 de maio de 2014



AS MARCAS QUE FICAM...

Quando completamos quinze anos queremos abraçar o mundo.
Rodopiar, dançar, pular.
A vida é uma festa! Um sonho...
Para mim foi um pesadelo e vou contar porque.
Havia nascido com um defeito congênito que se manifestou quando atingi o ápice do crescimento.
Era uma atleta então e me preparava para um campeonato. Adorava atletismo e praticava saltos em altura. Cada vez conseguia aumentar um pouquinho mais a minha marca e estava certa de que naquele ano teria um ótimo desempenho. Pois bem, num de meus saltos aconteceu algo desagradável, pois caí sentindo uma intensa dor nos dois pés.
A treinadora preocupou-se e deu um jeito de me levar para casa. Minha mãe me levou a um médico: um clínico geral. Este me encaminhou para um ortopedista e fui levada para outra cidade. Quando lá cheguei, ele me examinou, fez muitos exames e deu o diagnóstico.
Falou encarando-me e nunca vou esquecer seus olhos atrás das lentes dos óculos. Era duro de ouvir aquilo, como era duro, meu Deus! Eu teria que fazer quatro cirurgias urgentemente, sendo duas em cada pé. Disse-me que já tinha tido a oportunidade de fazer uma cirurgia semelhante nos Estados Unidos e que no Brasil seria inédita. E o pior de tudo era que se eu não fosse operada com a maior urgência estaria condenada a não andar mais.
As cirurgias seriam delicadíssimas porque meus nervos precisavam ser alongados.
Bem, tratou também com minha mãe do valor a ser cobrado por todo o serviço. Era bem alto e meus pais não dispunham de recursos financeiros na ocasião, nem tínhamos convênios médicos.
Então fui para um hospital escola e aprendi a conhecer o que é maior que a dor.
Foi um tempo tão difícil, que palavras jamais conseguiriam expressar. Por um tempo fiquei presa ao leito e à cadeira de rodas. Mais de dois anos. O sofrimento era intenso, não só as dores terríveis, como o meu emocional que ficou lastimável.
Eu tinha que passar por tudo aquilo?
Existe um livro onde está escrito que uma menina deslumbrada com o mundo necessita experimentar tamanha prova?
Quem pode responder?
Depois de tantas tentativas precisei recorrer novamente ao primeiro médico que havia me visto, já que não conseguia encontrar melhora onde estava me tratando. Este, depois de todo aquele tempo passado, disse que poderia fazer as duas cirurgias que ainda faltavam, mas que já não podia mais garantir nada. Se eu quisesse correr os riscos... Já me aproximava dos dezoito anos...
Fui submetida a mais duas cirurgias e teria que aguardar pacientemente o resultado delas...
Só sei que tudo passou. Superei! Sei que depois daqueles anos eu voltei a andar e naquele dia eu fiz uma promessa: que nunca mais ficaria caída, que nada na vida me abateria a ponto de me fazer desistir de viver.
Cumpri a promessa feita a mim mesma, a um “ser” que é maior que eu, imensuravelmente maior que tudo. E segui assim, levantando depois de cada tombo, sacudindo a poeira e abrindo meu sorriso para recomeçar tudo de novo.
As marcas ficam?
Num canto da gente elas ficam sim.
Nem que sejam para nos servir de farol quando as luzes todas começam a se apagar.
Quando me vejo desistindo de algum sonho eu lembro da moça que fui. Lembro do lugar, do céu azul daquela manhã. Porque foi numa manhã que eu voltei a andar. Larguei as muletas de lado e falei que eu conseguiria.
Caminhei com duas pernas engessadas diante de minha irmã e minha mãe que choravam e riam de felicidade vendo-me reaprendendo a andar.
Desde então minha vida se tornou uma longa caminhada e as pedras do caminho passaram a não significar quase nada.

Aprendi a valorizar a minha jornada.

sonia delsin 

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