UM CRAVO NA LAPELA
Hoje eu vi
um canteiro de cravos vermelhos. Abaixei até eles para sentir o perfume. Então
me senti um tanto estranha. Comecei a recordar uma pessoa que não cheguei a
conhecer, mas ouvi tanto falar dele.
Era meu
bisavô. Minha mãe sempre nos contou como ele amava estas flores.
Senti uma
ternura por esta pessoa que não conheci.
Acho os
cravos umas flores tão sensuais, o perfume tem algo de exótico.
Fiquei a
imaginar este homem que sempre usava um cravo na lapela. Como seria? Os sonhos
que tinha...
Eu trago
dele algo guardado em mim, na minha genética, no meu coração talvez.
Não o vi
jamais, não sei como poderiam ser suas mãos que apanhavam os cravos, seus olhos
que o admiravam, seu nariz que aspirava este perfume forte. Sua boca que pode
até tê-los beijado. Por que não?
Mas sua alma
eu quase consigo alcançar quando fecho os olhos e também aspiro o perfume.
Sempre, em
qualquer momento que vi uma destas flores foi dele que me recordei. Não
consegui nunca formar uma imagem física deste homem porque minha imaginação
poderia criá-lo de qualquer forma menos a original. Mas que importância poderia
ter esta imagem se a que guardo dentro de mim não precisa desta vestimenta dos
humanos?
Ele existe
em mim, nas minhas lembranças. O cravo o traz até aqui e sei que o amo porque
sou parte dele, mesmo sem tê-lo conhecido. Sei que existiu, sonhou e amou.
Não vou
dizer que o cravo é a minha flor preferida, mas ele me toca. Mexe com minha
sensibilidade. O perfume me invade inteira.
Nestes
momentos em que o aspiro eu penso no tempo, no que o tempo guarda. No que se
desgasta e no que nunca se acaba.
sonia delsin
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