quarta-feira, 28 de maio de 2014



UMA ESTRADA DO PASSADO


Vou fechar meus olhos e esperar um pouco.
Dizem que o passado deve ficar enterrado.
Que devemos pensar em seguir em frente.
Eu sei disso, mas vou trazer até aqui uma estrada do
passado... uma coisa boa que guardo. Momentos especiais.
Estive recordando por um instante um tempo que marcou minha
alma.
Íamos na carroça, meu pai que a guiava, minha irmã e eu.
Nós duas sentadinhas no fundo da carroça. O vento no rosto.
Conversávamos.
Parece que sinto de novo o perfume das flores de laranjeira.
É algo muito especial.
Lembro que num determinado trecho do caminho pedi a meu pai
que parasse e colhesse umas flores de uma árvore que
chamávamos de Santa Bárbara.
Eram umas flores tão delicadas.
Como adorava a delicadeza delas!
Murchavam com facilidade, é verdade.
Eu desejava levar para casa um pouco da beleza e não entendia
naquele tempo que existem belezas que não se transportam.
Elas possuíam todo aquele encanto na árvore.
Mas para me contentar meu pai parava, apanhava e me entregava
um buquê delas.
Estive recordando como ele adorava suas meninas.
Não dizia. Com palavras não. Mas eu sabia, sempre soube. Seus olhos viviam carregados de ternura.
Ele nos amava intensamente.
E se foi.
As lembranças ficaram.
Fechando os olhos eu volto a ser a garotinha frágil que se
encolhia no cantinho.
A vida deu tantas voltas. Tantos sonhos, planos, tantas
realizações. Tantas ilusões e desilusões.
Descobri que o tempo nada significa. Que a menina vive.
Sonha, deseja. Ainda sente o cheiro de mato, o vento nos
cabelos, ouve o tropel do cavalo.
Deseja o carinho do pai. As flores tão fugazes.
Deseja caminhar pelos caminhos do passado e reviver momentos
que se imortalizaram.
Deseja o tempo que já passou.

sonia delsin 

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