SETE OU OITO
Eu não me recordo se estava naquele
dia completando sete ou oito anos. O que me lembro bem foi que fiquei vendo
todo o preparativo da festa. Beliscando uma coisa ou outra, levando uns
petelecos e correndo de um lado para o outro feliz da vida.
Afinal era a aniversariante. Aquele
dia era inteiramente meu. Minha mãe não saía da volta do fogão preparando os
quitutes.
Era tão gostoso quando os
convidados chegavam. Tantas crianças, brincadeiras. Ah! Nestas horas eu nem
pensava mais em comer, já estava enjoada de provar uma coisa ou outra; além do
mais não queria perder um minuto. Era a hora das brincadeiras, do pega-pega, do
pique, do passa-anel, de saltar amarelinha, de dançar em roda. Tantas
brincadeiras mais.
Guaraná caçulinha! Toda vez que
vejo uma festinha infantil eu me recordo do sabor daquela guaranazinha.
Era um tempo bom demais para se
perder, era o tempo das ilusões.
Pois bem, neste dia eu fiz uma
travessura e tanto. As pessoas da família nunca esqueceram.
Não sei porque cargas d’água eu fiz
aquilo.
Estava tudo bonitinho. Não era como
as festas de hoje em dia. Era uma coisa bem mais simples, mas os comes e bebes
eram fartos; havia sucos coloridos além dos guaranás.
Minha mãe sempre foi caprichosa e enfeitava
a sala e a varanda com muitas flores, toalhas de crochê. Ela encerava o chão e
o deixava brilhando como um espelho. Não se importava que depois iriam sujar
tudo. Ela queria que quando as pessoas chegassem encontrassem tudo numa lindeza
só.
A hora da festa de aproximava e os
convidados logo chegariam.
Então eu aprontei uma arte danada
de feia. Eu me escondi embaixo da cama e demoraram em me encontrar. Foram uns
primos que me acharam lá e eles insistiam muito para que eu me levantasse e
fosse receber os parabéns de todos.
Sem a aniversariante a festa não
podia começar. Não tinha sentido.
Eu me recusava a sair dali e como
era o dia dos meus anos, minha mãe não queria ralhar comigo. Meu pai nem
apareceu no quarto.
Os primos e primas me puxavam.
Minha doce mãezinha Lina me agradava e tentava me levar para a sala.
Com muito tato e muito carinho ela
conseguiu me arrastar para lá e os convidados me receberam com tantos beijos e
abraços. Logo eu já havia me esquecido que tentara me esquivar da festa.
Não me recordo o que levou a agir
daquela forma, mas não esqueço o cheiro de festa que existia no ar, os bolos
que minha mãe preparava de uma forma tão diferente. Ela colocava-os em panelas
e colocava brasas sobre as tampas para cozinhar a massa e ficavam uns bolos tão
saborosos.
O sabor e o cheiro ficaram
impregnados em mim, como o gosto dos docinhos que ela fazia e enrolava passando
no açúcar. Recordo-me que depois os colocava para secar ao sol.
Estas lembranças parecem carícias
ao meu coração. Quando ele está machucado eu consigo trazer aqueles dias para
os dias de hoje e a menina vem acariciar a mulher madura. Na verdade a mulher
guardou no peito os sonhos da menina e ela ficou morando num ninho que nunca se
desfez.
sonia delsin
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