quarta-feira, 28 de maio de 2014



UMA VOZ MANSA ENCANTAVA AQUELAS TARDES

Eu era naquele tempo uma mocinha. Adorava estar naquele lugar.
Era um sítio bem afastado da cidade em que eu morava. Tinha que tomar um ônibus para chegar até lá. Descia numa rodovia e a atravessava. Era um tanto perigosa a travessia.
Depois caminhava pouco mais de um quilômetro de uma estradinha cascalhada.
Muita coisa mudou nestes anos todos, mas a estradinha continua do mesmo jeito.
Quando eu lá chegava as crianças faziam festa e o casal também se encantava com minha presença.
Tudo era muito simples, mas adorável.
As pescarias que fazíamos eram deliciosas e jamais me esquecerei de tantas aventuras.
Havia muitas espécies de frutas no pomar e eu me regalava.
Toda vez que sinto no ar o cheiro de toucinho derretido é daquele sítio que me recordo.
As tardes. O sol se pondo. Meu primo chegando da roça. Ele vinha todo contente depois de um dia de labuta.
Tomava um banho, colocava uma roupa confortável e umas chinelas bem velhinhas.
Na frente da casa existe uma árvore imensa e era para lá que nos dirigíamos. Ele se sentava num banquinho e começava a conversar conosco, o som agradável de sua voz enchia aquele final de dia.
Eu o olhava. As mãos cheias de calos e uns olhos tão doces. Ele olhava aqueles campos a se perder de vista e a voz branda continuava a nos contar coisas na mesma toada do começo ao fim.
Naquele homem existia um amor tão grande que me tocava. Todas as pessoas se encantavam com sua simplicidade e generosidade. Nunca o vi elevar por uma só vez na vida a voz. Era sempre um lago tranqüilo. O vento poderia vir da direção que fosse que não o abalava. Era uma criatura singular.
As crianças vinham se sentar bem coladinhas em mim e quietinhas ficavam ouvindo o pai conversar. A menina era linda, tinha uns olhos de derreter corações.
Ela me olhava, passava a mão suavemente em meu rosto; então eu a puxava para meu colo e ficávamos as duas bem estreitadinhas esperando a tarde morrer.
Eu tinha a impressão de que o som daquelas palavras calmas se espalhava pelos campos; indo visitar cada pedacinho de chão, cada vegetação.
Aos poucos o manto da noite descia sobre todas as coisas. O firmamento nunca me pareceu tão belo como naquele sítio. Era um negror por todo canto e encima de nossas cabeças tremulavam milhares de estrelas.
As pessoas que vivem no campo têm o privilégio de enxergar com mais clareza as estrelas.  Nas cidades, as luzes das lâmpadas elétricas, não nos permite apreciar a beleza da noite.
São lembranças que guardo de um tempo especial, de pessoas especiais que coloriram tantos dias de minha vida. Ainda pareço ouvir aquelas palavras e quando fecho os olhos ainda pareço sentir a Claudinha tão coladinha em mim. Ainda pareço sentir aquele cheiro de terra se misturando ao cheiro do toucinho derretido.

Tudo isso ficou em mim. É um tempo morto, é passado. Mas está aqui no meu peito guardado.

sonia delsin 

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