UMA
VOZ MANSA ENCANTAVA AQUELAS TARDES
Eu era naquele tempo uma mocinha. Adorava estar naquele lugar.
Era um sítio bem afastado da cidade em que eu morava. Tinha que tomar um
ônibus para chegar até lá. Descia numa rodovia e a atravessava. Era um tanto
perigosa a travessia.
Depois caminhava pouco mais de um quilômetro de uma estradinha cascalhada.
Muita coisa mudou nestes anos todos, mas a estradinha continua do mesmo
jeito.
Quando eu lá chegava as crianças faziam festa e o casal também se encantava
com minha presença.
Tudo era muito simples, mas adorável.
As pescarias que fazíamos eram deliciosas e jamais me esquecerei de tantas
aventuras.
Havia muitas espécies de frutas no pomar e eu me regalava.
Toda vez que sinto no ar o cheiro de toucinho derretido é daquele sítio que
me recordo.
As tardes. O sol se pondo. Meu primo chegando da roça. Ele vinha todo
contente depois de um dia de labuta.
Tomava um banho, colocava uma roupa confortável e umas chinelas bem
velhinhas.
Na frente da casa existe uma árvore imensa e era para lá que nos
dirigíamos. Ele se sentava num banquinho e começava a conversar conosco, o som
agradável de sua voz enchia aquele final de dia.
Eu o olhava. As mãos cheias de calos e uns olhos tão doces. Ele olhava
aqueles campos a se perder de vista e a voz branda continuava a nos contar
coisas na mesma toada do começo ao fim.
Naquele homem existia um amor tão grande que me tocava. Todas as pessoas se
encantavam com sua simplicidade e generosidade. Nunca o vi elevar por uma só
vez na vida a voz. Era sempre um lago tranqüilo. O vento poderia vir da direção
que fosse que não o abalava. Era uma criatura singular.
As crianças vinham se sentar bem coladinhas em mim e quietinhas ficavam
ouvindo o pai conversar. A menina era linda, tinha uns olhos de derreter
corações.
Ela me olhava, passava a mão suavemente em meu rosto; então eu a puxava
para meu colo e ficávamos as duas bem estreitadinhas esperando a tarde morrer.
Eu tinha a impressão de que o som daquelas palavras calmas se espalhava
pelos campos; indo visitar cada pedacinho de chão, cada vegetação.
Aos poucos o manto da noite descia sobre todas as coisas. O firmamento
nunca me pareceu tão belo como naquele sítio. Era um negror por todo canto e
encima de nossas cabeças tremulavam milhares de estrelas.
As pessoas que vivem no campo têm o privilégio de enxergar com mais clareza
as estrelas. Nas cidades, as luzes das
lâmpadas elétricas, não nos permite apreciar a beleza da noite.
São lembranças que guardo de um tempo especial, de pessoas especiais que
coloriram tantos dias de minha vida. Ainda pareço ouvir aquelas palavras e
quando fecho os olhos ainda pareço sentir a Claudinha tão coladinha em mim.
Ainda pareço sentir aquele cheiro de terra se misturando ao cheiro do toucinho
derretido.
Tudo isso ficou em mim. É um tempo morto, é passado. Mas está aqui no meu
peito guardado.
sonia delsin
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