LEMBRANÇA
DOLOROSA
Estive
hoje a folhear um álbum de retratos bem antigo.
Numa
das fotografias estou vestida com uma blusinha que adorava. Um fato ocorreu com
esta blusinha que me marcou para sempre.
Eu
tinha na época vinte anos e acabara de me mudar para a capital.
Lá
eu havia chegado cheia de sonhos...
Uma
garota, que estudava com minha irmã, me propôs de ficar morando com ela no
apartamento que dividia com quatro professoras. Era tempo de férias escolares e
as moças estavam fora. Eu ajudaria nas despesas, faria companhia e procuraria
com calma um bom lugar para morar.
Tivera
sorte, conseguira me empregar no primeiro lugar que procurara. Era bem o que eu
estava procurando.
E
aquela oportunidade de passar uns tempos com a “Toninha” pareceu-me ótima.
Ela
era uma pessoa agradável e nos dávamos super bem.
Três
das moças só voltariam em janeiro e uma delas só voltaria em fevereiro e ainda
era dezembro.
Foram
dias tão gostosos os passados naquele ap que jamais esquecerei.
Em
janeiro as três voltaram e eram pessoas ótimas. Como a que faltava chegar só
voltaria em fevereiro passei a ocupar o quartinho dela. Era o menor de todos.
Organizei
todas as minhas coisas porque sempre gostei de tudo muito arrumadinho.
Numa
tarde, ao chegar ao apartamento, vi pelo corredor jogados todos os meus
pertences. Aquela blusinha foi a primeira coisa que vi. Eu, que sempre a
deixava num cabide, a vi jogada num canto como um trapo.
Aquilo
me doeu tanto. Nunca imaginei que alguém tivesse um gesto destes comigo.
Ainda
não havia provado na pele o desamor de alguém.
Comecei
a chorar e recolher tudo que era meu. Neste meio tempo uma das moças chegou e
me contou que a amiga precisou voltar antes do previsto.
Ela
me ajudou a recolher tudo e colocamos sobre sua cama. Ela tentava me acalmar e
me dizia que sairíamos as duas para procurar um lugar onde eu pudesse ficar.
Aconteceu
exatamente assim. Ela saiu comigo e procuramos. Foi difícil encontrar e acabei
me mudando para uma “república” onde morava outra colega de trabalho de
minha irmã.
Acabou
não dando certo lá também e logo acabei me mudando para um pensionato onde
fiquei muito tempo.
Não
cheguei a conhecer pessoalmente a moça que me fez aquela grande ofensa. Ela
provavelmente vivia de mal com o mundo.
Eu
iria me retirar de seus aposentos no mesmo dia. Nunca desejei ocupar um lugar
que pertence a outrem... mas ela não teve paciência, ou era mesmo uma rebelde
sem causa. Uma frustrada... sei lá...
As
pessoas muitas vezes agem por impulso e acredito que ela agiu desta forma
porque não pensou duas vezes.
Não
sei o que foi feito dela. Nunca perguntei... enterrei esta estória, mas a
blusinha que o tempo consumiu ficou guardada no retrato... e a estória eu
descobri que não esquecerei jamais...
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