quarta-feira, 28 de maio de 2014



LEMBRANÇA DOLOROSA
                                                               
Estive hoje a folhear um álbum de retratos bem antigo.
Numa das fotografias estou vestida com uma blusinha que adorava. Um fato ocorreu com esta blusinha que me marcou para sempre.
Eu tinha na época vinte anos e acabara de me mudar para a capital.
Lá eu havia chegado cheia de sonhos...
Uma garota, que estudava com minha irmã, me propôs de ficar morando com ela no apartamento que dividia com quatro professoras. Era tempo de férias escolares e as moças estavam fora. Eu ajudaria nas despesas, faria companhia e procuraria com calma um bom lugar para morar.
Tivera sorte, conseguira me empregar no primeiro lugar que procurara. Era bem o que eu estava procurando.
E aquela oportunidade de passar uns tempos com a “Toninha” pareceu-me ótima.
Ela era uma pessoa agradável e nos dávamos super bem.
Três das moças só voltariam em janeiro e uma delas só voltaria em fevereiro e ainda era dezembro.
Foram dias tão gostosos os passados naquele ap que jamais esquecerei.
Em janeiro as três voltaram e eram pessoas ótimas. Como a que faltava chegar só voltaria em fevereiro passei a ocupar o quartinho dela. Era o menor de todos.
Organizei todas as minhas coisas porque sempre gostei de tudo muito arrumadinho.
Numa tarde, ao chegar ao apartamento, vi pelo corredor jogados todos os meus pertences. Aquela blusinha foi a primeira coisa que vi. Eu, que sempre a deixava num cabide, a vi jogada num canto como um trapo.
Aquilo me doeu tanto. Nunca imaginei que alguém tivesse um gesto destes comigo.
Ainda não havia provado na pele o desamor de alguém.
Comecei a chorar e recolher tudo que era meu. Neste meio tempo uma das moças chegou e me contou que a amiga precisou voltar antes do previsto.
Ela me ajudou a recolher tudo e colocamos sobre sua cama. Ela tentava me acalmar e me dizia que sairíamos as duas para procurar um lugar onde eu pudesse ficar.
Aconteceu exatamente assim. Ela saiu comigo e procuramos. Foi difícil encontrar e acabei me mudando para uma “república” onde morava outra colega de trabalho de minha irmã.
Acabou não dando certo lá também e logo acabei me mudando para um pensionato onde fiquei muito tempo.
Não cheguei a conhecer pessoalmente a moça que me fez aquela grande ofensa. Ela provavelmente vivia de mal com o mundo.
Eu iria me retirar de seus aposentos no mesmo dia. Nunca desejei ocupar um lugar que pertence a outrem... mas ela não teve paciência, ou era mesmo uma rebelde sem causa. Uma frustrada... sei lá...
As pessoas muitas vezes agem por impulso e acredito que ela agiu desta forma porque não pensou duas vezes.

Não sei o que foi feito dela. Nunca perguntei... enterrei esta estória, mas a blusinha que o tempo consumiu ficou guardada no retrato... e a estória eu descobri que não esquecerei jamais... 

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