RUÍDOS NO PORÃO
A casa
antiga sempre me intrigou. O assoalho range à medida que caminhamos e as noites
são estranhas.
Parece que
ouvimos passos por toda a casa. O vento na janela sempre me assustou, porque
ele parecia estar sempre me trazendo uma mensagem.
Durante o
dia há o movimento da rua, os sons da vida, e estes pequenos ruídos noturnos
nos passam desapercebidos.
Dia destes
eu estive lá. Engraçado! Descobri que já não existe mais o temor dos ruídos em
mim. Nem o temor, nem a dor.
O tempo vai
carregando com ele tanta coisa.
Antes, eu me
deitava e ficava ouvindo o silêncio. Esperava que os sons chegassem, um a um.
Estremecia
quando parecia ouvir uma voz do passado, uma tosse insistente, uma pancadinha
no assoalho.
Eu ficava na
cama olhando o nada e ele me trazia imagens que pareciam dançar no teto.
Via pessoas
que tanto amara.
São
fabricados pela mente?
Quem sabe.
Sei que eles
chegavam antes que eu adormecesse ou durante a madrugada e então eu esperava a
manhã chegar.
Os sons no
porão me punham mais medo. Era um estalo, um longo silêncio; outro estalo.
Era a
madeira que rangia?
Costumávamos
dizer que a casa era assombrada.
Nas últimas
vezes que tenho dormido lá não fico esperando os ruídos, nem me assusto com
nada. Fecho os olhos e trato de dormir e se acordo no meio da noite logo volto
a conciliar o sono.
Eu decidi
ignorar qualquer barulho.
Nesta última
noite que lá estive fiquei a ouvir um som ao longe. Uma música que tocava em
algum canto; depois ouvi um cão ladrar e o sono chegou. Dormi bem aconchegada
ao edredom. As cobertas estavam tão fofas, tão macias. O sono me chegou tão
levemente.
Descobri
feliz que a casa já não me amedronta. Que ela guarda a estória do passado, como
também guardo. Descobri que tudo isto é um motivo de alegria, porque tive
momentos lindos, momentos significativos nela.
Tudo o mais
perde o sentido. O que importa de verdade são os nossos sentimentos em relação
às coisas.
sonia delsin

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