quarta-feira, 28 de maio de 2014



RUÍDOS NO PORÃO

A casa antiga sempre me intrigou. O assoalho range à medida que caminhamos e as noites são estranhas.
Parece que ouvimos passos por toda a casa. O vento na janela sempre me assustou, porque ele parecia estar sempre me trazendo uma mensagem.
Durante o dia há o movimento da rua, os sons da vida, e estes pequenos ruídos noturnos nos passam desapercebidos.
Dia destes eu estive lá. Engraçado! Descobri que já não existe mais o temor dos ruídos em mim. Nem o temor, nem a dor.
O tempo vai carregando com ele tanta coisa.
Antes, eu me deitava e ficava ouvindo o silêncio. Esperava que os sons chegassem, um a um.
Estremecia quando parecia ouvir uma voz do passado, uma tosse insistente, uma pancadinha no assoalho.
Eu ficava na cama olhando o nada e ele me trazia imagens que pareciam dançar no teto.
Via pessoas que tanto amara.
São fabricados pela mente?
Quem sabe.
Sei que eles chegavam antes que eu adormecesse ou durante a madrugada e então eu esperava a manhã chegar.
Os sons no porão me punham mais medo. Era um estalo, um longo silêncio; outro estalo.
Era a madeira que rangia?
Costumávamos dizer que a casa era assombrada.
Nas últimas vezes que tenho dormido lá não fico esperando os ruídos, nem me assusto com nada. Fecho os olhos e trato de dormir e se acordo no meio da noite logo volto a conciliar o sono.
Eu decidi ignorar qualquer barulho.
Nesta última noite que lá estive fiquei a ouvir um som ao longe. Uma música que tocava em algum canto; depois ouvi um cão ladrar e o sono chegou. Dormi bem aconchegada ao edredom. As cobertas estavam tão fofas, tão macias. O sono me chegou tão levemente.
Descobri feliz que a casa já não me amedronta. Que ela guarda a estória do passado, como também guardo. Descobri que tudo isto é um motivo de alegria, porque tive momentos lindos, momentos significativos nela.
Tudo o mais perde o sentido. O que importa de verdade são os nossos sentimentos em relação às coisas.

sonia delsin 

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