quarta-feira, 28 de maio de 2014



MUITO ALÉM DE ONDE A VISTA ALCANÇA

Olhei o horizonte. O sol se levantava.
Erguia-se dourando uma paisagem encantadora.
Minhas manhãs são mais lindas porque assisto o nascer de um novo tempo.
Pensa que todos os dias são iguais?
Pensa que é monótono ver nascer o mesmo sol todos os dias atrás daqueles eucaliptos?
Pois não é.
Hoje o bem-te-vi estava gritando quando os primeiros raios surgiram.
Ontem foi uma borboleta que quase esbarrou em mim.
As folhas estavam cobertas de sereno. A manhã estava mais fria.
Eu pensei enquanto o sol se erguia em civilizações extintas.
Pensei nos homens que passaram por aqui.
Suas bagagens pesadas.
Seus amores, desamores.
Enquanto tantas pessoas dormem, eu caminho e penso.
Componho poemas sob um céu encantador.
Eu penso no ódio dos homens e no amor.
Hoje eu voei quando tudo ficou dourado.
Viajei para meu mundo encantado.
Minhas pernas me levaram pelas ruas e me trouxeram de volta para casa.
Mas, neste meio tempo, minhas asas me carregaram para um lugar onde a vista não alcança.
Um lugar onde volto a ser criança.
Neste tempo que visitei uma menina chorava e eu a consolei.
Eu prometi a ela que nós duas juntas ainda daríamos muitas risadas.
Prometi que caminharíamos até o fim dos tempos pelas calçadas a buscar a borboleta azul que ela tanto almejou alcançar.
Quando eu lhe prometi isto ela parou de chorar e eu me vi a abrir o portão. Um colibri que beijava uma flor de meu jardim quase trombou comigo e então eu me localizei.


 sonia delsin


PLANTANDO

Hoje, bem cedo, me chegou uma lembrança.
Olhei a terra e recordei minha infância.
Recordei meu pai. Suas mãos calosas, suas vestimentas grosseiras e seus belos olhos.
Meu Deus! Eu guardo tudo isto.
A roça, o preparo da terra, as sementes lançadas ao solo.
Ele ia à frente, abria pequenas valas. Atrás íamos, a mana e eu.
As duas com um embornal cheio de sementes.
Ele nos dizia quantas devíamos jogar em cada buraco e tínhamos já o traquejo para cobrir com terra os grãos.
Era uma maneira peculiar de virar o pé e cobrir as sementes com terra fofinha.
Depois esperávamos que nascessem.
Fechei meus olhos e trouxe aos dias atuais a plantação, as folhas se erguendo, se esticando em busca da luz e rasgando a terra.
Os pés de milho, as folhas tão macias.
Parece que sou menina de novo e fico assistindo o milagre do grão.
Parece que ainda estou lá parada assistindo o desenvolver da plantação.
Estas recordações vêm me lembrar a trajetória de meu viver.
O que andei plantando pela vida afora.
Andei distribuindo palavras, poemas. Falando em prosa e verso.
Estive distribuindo o que tenho de melhor dentro de mim, que é a poesia.
Estive plantando, amando.
Estive vivendo intensamente e valorizando cada instante neste planeta.
Estive vivendo um constante semear de palavras bonitas, tocantes, emocionantes.
Descobri que todos nós nascemos com uma missão. A minha foi nascer poeta e contar da beleza, da tristeza, da alegria.
Um poeta nunca é de todo triste, nem de todo alegre, mas é encantado com a vida.

sonia delsin 


RUÍDOS NO PORÃO

A casa antiga sempre me intrigou. O assoalho range à medida que caminhamos e as noites são estranhas.
Parece que ouvimos passos por toda a casa. O vento na janela sempre me assustou, porque ele parecia estar sempre me trazendo uma mensagem.
Durante o dia há o movimento da rua, os sons da vida, e estes pequenos ruídos noturnos nos passam desapercebidos.
Dia destes eu estive lá. Engraçado! Descobri que já não existe mais o temor dos ruídos em mim. Nem o temor, nem a dor.
O tempo vai carregando com ele tanta coisa.
Antes, eu me deitava e ficava ouvindo o silêncio. Esperava que os sons chegassem, um a um.
Estremecia quando parecia ouvir uma voz do passado, uma tosse insistente, uma pancadinha no assoalho.
Eu ficava na cama olhando o nada e ele me trazia imagens que pareciam dançar no teto.
Via pessoas que tanto amara.
São fabricados pela mente?
Quem sabe.
Sei que eles chegavam antes que eu adormecesse ou durante a madrugada e então eu esperava a manhã chegar.
Os sons no porão me punham mais medo. Era um estalo, um longo silêncio; outro estalo.
Era a madeira que rangia?
Costumávamos dizer que a casa era assombrada.
Nas últimas vezes que tenho dormido lá não fico esperando os ruídos, nem me assusto com nada. Fecho os olhos e trato de dormir e se acordo no meio da noite logo volto a conciliar o sono.
Eu decidi ignorar qualquer barulho.
Nesta última noite que lá estive fiquei a ouvir um som ao longe. Uma música que tocava em algum canto; depois ouvi um cão ladrar e o sono chegou. Dormi bem aconchegada ao edredom. As cobertas estavam tão fofas, tão macias. O sono me chegou tão levemente.
Descobri feliz que a casa já não me amedronta. Que ela guarda a estória do passado, como também guardo. Descobri que tudo isto é um motivo de alegria, porque tive momentos lindos, momentos significativos nela.
Tudo o mais perde o sentido. O que importa de verdade são os nossos sentimentos em relação às coisas.

sonia delsin 


O FANTASMA DO PORÃO

Acordei com o coração aos pulos.
Sob o assoalho fica o porão.
As batidas que ouvi foram fortes, repetitivas.
Estive sonhando?
Costumávamos contar histórias de assombração na infância. Eram tantos os causos.
Velho Sebastião!
Tantos anos. Na minha cabeça ainda as histórias que ele contava estão tão bem guardadas.
Há coisas que o tempo não leva, não carrega.
Fica tudo impregnado na gente.
A menina que fui sempre se encantou em ouvir e a mulher que ela se tornou ama contar.
Voltando a contar sobre o assunto que me moveu a escrever esta crônica. Bem, eu fiquei quietinha.
A cama estava tão quentinha e as cobertas eram tão macias.
Meu corpo estava adorando estar ali e minha alma amando estar na casa dos meus tempos de menina. Menina-moça!
Foi no início da juventude que a deixei.
A deixei em termos, porque sempre estive retornando aqui.
Na madrugada o silêncio voltou a reinar e meu coração por fim pôde sossegar.
Já ia adormecer de novo quando outra batida fez meu coração pular.
Estranho! Força da minha imaginação?
Talvez. Tenho essa facilidade de voar.
De mãos cruzadas sob a nunca fiquei a escutar.
De novo o silencio a dominar.
Que bobagem a minha!
Estou sempre a fantasiar.
Por que não me levantar e verificar?
Comprovando que não havia porque me preocupar seria mais fácil me tranqüilizar. Depois sim poderia adormecer em paz.
Descalça, eu deixei o leito e caminhei devagar. Acendi a lâmpada do quarto.
Peguei o corredor. Desci a escadaria escura e fui colocar a mão no interruptor... Antes que meus dedos o tocassem a lâmpada se acendeu.
Voltar correndo para cima? Esquecer tudo?
Ó cabeça fantasiosa!
Continuei parada ali. Nada ao meu redor além do que era tão conhecido meu.
Os armários estavam todos fechados. As janelas e portas, trancadas.
Nada mesmo fora do lugar.
Temos essa mania de aumentar as coisas no meio da madrugada. Criar fantasmas é tão fácil.
Coloquei os dedos no interruptor e apaguei a luz.
Fiquei pensando enquanto subia os degraus se não estive só a imaginar tudo aquilo.
De volta ao quarto esfreguei os pés no tapete e me enfiei embaixo das confortáveis cobertas.
Quando a manhã nasceu eu despertei e fiquei pensando no fantasma do porão que não enxerguei.

Pensei se realmente ele esteve lá ou se sonhei...

sonia delsin


UM NINHO NO VASO


Uma das casas que mais adoro visitar é a de uma tia que reside na cidadezinha onde nasci.
A casa é impecável e decorada com extremo bom gosto, apesar da simplicidade.

É um recanto de paz, cheira a limpeza e tudo está sempre muito organizado.
O quintal todo é um primor e o jardim possui uma quantidade imensa de flores e folhagens combinadas entre si.
Existe um sincronismo perfeito na distribuição das plantas transformando o terreno acidentado num ambiente peculiar.
Desde a infância sempre adorei estar lá.
A sensação é que adentramos em outro mundo quando lá chegamos.
Um mundo mais perfeito.
É uma sugestão? Uma impressão causada pela perfeição das coisas? Talvez sim.
A pessoa perfeccionista que é esta minha tia é simplesmente encantadora.
É uma mulher rara, de doces olhos azuis e mãos de fada.
Costurava divinamente e em tudo que faz capricha extremamente.
Na parte inferior da casa há uma varanda imensa toda arranjada com vasos magníficos. Há uma variedade enorme de folhagens. É um local fresco e muito agradável. As cadeiras nos convidam a sentar e lá ficar por horas.
Na véspera de Natal estive visitando-a.
Admirei cada recanto da casa. Fiquei simplesmente encantada com o rocambole divino que descansava sobre um móvel aguardando o horário da ceia.
Desci a singela escadaria que leva à varanda e ao jardim.
Meus olhos gostaram de admirar tudo.
Minha tia me pegou pela mão e disse que a acompanhasse para ver algo especial.
Diante de um vaso de xaxim ela parou e me mostrou algo fenomenal. Naquele canto da varanda uma samambaia arrastava suas folhas até o chão formando um cortinado verde.
Olhei e nem conseguia crer no que via.
Enquanto eu admirava tudo ela me contou que um sabiá estivera rodeando a casa. Depois ela pôde vê-lo a carregar material para fabricar um ninho.
E descobriu extasiada que ele escolhera um de seus vasos de folhagem para construí-lo.
Contou gesticulando, naquele jeito tão dela, que era maravilhoso poder admirar o trabalho da ave em construir seu novo lar e depois os ovinhos, os filhotes.
Ela assistia a mãe alimentando os filhotinhos bem de pertinho.
E me contou também que na manhã daquele mesmo dia é que eles alçaram voo e abandonaram o ninho.
Algo tão bem feito, tão perfeito. Algo que combina perfeitamente com aquela casa.
Eu nunca havia visto uma ave, com o porte de um sabiá, chocar ovos num vaso de folhagem.
Vou guardar para sempre em meu peito esta bela imagem. Era tão acolhedor ver aquele ninho construído aonde as folhas nasciam. Era a vida nascendo dentro da vida. As folhas novas envolvendo o ninho. Algo emocionante mesmo. 
 sonia delsin


AS MARCAS QUE FICAM...

Quando completamos quinze anos queremos abraçar o mundo.
Rodopiar, dançar, pular.
A vida é uma festa! Um sonho...
Para mim foi um pesadelo e vou contar porque.
Havia nascido com um defeito congênito que se manifestou quando atingi o ápice do crescimento.
Era uma atleta então e me preparava para um campeonato. Adorava atletismo e praticava saltos em altura. Cada vez conseguia aumentar um pouquinho mais a minha marca e estava certa de que naquele ano teria um ótimo desempenho. Pois bem, num de meus saltos aconteceu algo desagradável, pois caí sentindo uma intensa dor nos dois pés.
A treinadora preocupou-se e deu um jeito de me levar para casa. Minha mãe me levou a um médico: um clínico geral. Este me encaminhou para um ortopedista e fui levada para outra cidade. Quando lá cheguei, ele me examinou, fez muitos exames e deu o diagnóstico.
Falou encarando-me e nunca vou esquecer seus olhos atrás das lentes dos óculos. Era duro de ouvir aquilo, como era duro, meu Deus! Eu teria que fazer quatro cirurgias urgentemente, sendo duas em cada pé. Disse-me que já tinha tido a oportunidade de fazer uma cirurgia semelhante nos Estados Unidos e que no Brasil seria inédita. E o pior de tudo era que se eu não fosse operada com a maior urgência estaria condenada a não andar mais.
As cirurgias seriam delicadíssimas porque meus nervos precisavam ser alongados.
Bem, tratou também com minha mãe do valor a ser cobrado por todo o serviço. Era bem alto e meus pais não dispunham de recursos financeiros na ocasião, nem tínhamos convênios médicos.
Então fui para um hospital escola e aprendi a conhecer o que é maior que a dor.
Foi um tempo tão difícil, que palavras jamais conseguiriam expressar. Por um tempo fiquei presa ao leito e à cadeira de rodas. Mais de dois anos. O sofrimento era intenso, não só as dores terríveis, como o meu emocional que ficou lastimável.
Eu tinha que passar por tudo aquilo?
Existe um livro onde está escrito que uma menina deslumbrada com o mundo necessita experimentar tamanha prova?
Quem pode responder?
Depois de tantas tentativas precisei recorrer novamente ao primeiro médico que havia me visto, já que não conseguia encontrar melhora onde estava me tratando. Este, depois de todo aquele tempo passado, disse que poderia fazer as duas cirurgias que ainda faltavam, mas que já não podia mais garantir nada. Se eu quisesse correr os riscos... Já me aproximava dos dezoito anos...
Fui submetida a mais duas cirurgias e teria que aguardar pacientemente o resultado delas...
Só sei que tudo passou. Superei! Sei que depois daqueles anos eu voltei a andar e naquele dia eu fiz uma promessa: que nunca mais ficaria caída, que nada na vida me abateria a ponto de me fazer desistir de viver.
Cumpri a promessa feita a mim mesma, a um “ser” que é maior que eu, imensuravelmente maior que tudo. E segui assim, levantando depois de cada tombo, sacudindo a poeira e abrindo meu sorriso para recomeçar tudo de novo.
As marcas ficam?
Num canto da gente elas ficam sim.
Nem que sejam para nos servir de farol quando as luzes todas começam a se apagar.
Quando me vejo desistindo de algum sonho eu lembro da moça que fui. Lembro do lugar, do céu azul daquela manhã. Porque foi numa manhã que eu voltei a andar. Larguei as muletas de lado e falei que eu conseguiria.
Caminhei com duas pernas engessadas diante de minha irmã e minha mãe que choravam e riam de felicidade vendo-me reaprendendo a andar.
Desde então minha vida se tornou uma longa caminhada e as pedras do caminho passaram a não significar quase nada.

Aprendi a valorizar a minha jornada.

sonia delsin 


SONHEI... EU SEI...

Deus! O sonho desta noite foi magnífico!
Parecia real.
Sonhei que tinha asas. Não estas da imaginação que me levam a todo lugar que desejo estar. Umas asas de verdade. Rosas. Num cor-de-rosa das rosas que minha mãe cultivava no jardim de nossa chácara.
Elas eram lindas e tinham bem no centro uns pontos coloridos. Estes pontos brilhavam como um arco-íris.
Eram grandes, tão bem feitas e eu as olhava totalmente encantada. Nem podia crer que me pertenciam. Parecia uma criança que olha o mundo com olhos admirados.
Eu ensaiava um voo e quando dava por mim sobrevoava cidades, campos, rios, mares.
Era um pássaro lindo voando sobre o mundo dos homens.
No sonho eu recordava um livro que havia lido e pensava que de repente poderiam me atacar no espaço.
Sabia que não era normal ter aquelas asas e voar. 
Mas a sensação era tão boa. Eu deixava meu corpo solto e flutuava. As correntes de ar quente me levavam, levavam... arrastavam.
Então desejei estar num lugar que eu sei que existe e me senti triste porque sabia que não devia ir até lá.
Era um lugar proibido até para os seres alados.
Fiquei voando e pensando que poderia escolher um outro lugar para morar. No topo de uma montanha, à beira do mar, num lugar muito frio, muito quente. Eu poderia escolher.
Resolvi acompanhar uns pássaros e eles não me estranharam. Me aceitaram...
Eles migravam e senti que não estava desejando isso para mim.
Batia uma saudade no peito. Saudade de minha casa, de minhas coisas. Saudade de pisar o chão.
Descobri dentro do sonho que já não era mais a mesma pessoa de antes, já não era humana. Aquele corpo alado era o meu espírito. Tudo que eu recordava fazia parte do passado.
Eu estava partindo do planeta... as asas me levavam e aos poucos eu tomava consciência de meu estado.
Já havia morrido para as coisas da terra e estava num outro tempo. Desencontrada ainda eu voava em busca de mim.
Nesta busca eu acordei e me sentei na cama. Olhei meu quarto e mesmo na semi-escuridão reconheci tudo que me rodeava. Fiquei olhando o nada e pensando naquele ser alado. Ele mora dentro deste corpo que carrego? Um dia ele voará? Ele tem voado enquanto sonho?
Eu sei que sonhei... que voei... eu sei...

sonia delsin

QUE LONGO CAMINHAR!

Ela ia só por uma estrada dentro dela mesma. Não dividia sonhos, não dividia o sol que a banhava.
Ia só numa procura que significava busca, encontro e constatação.
Era uma mulher onde os porquês viviam a fazer eco.
No alto de uma montanha ela apreciava o vale e nele vozes gritavam.
Vozes antigas, de um tempo morto.
Maria Helena não sabia se aquele momento existira de fato. Se o real confundia-se ao imaterial.
Ela guardava dentro de si um mundo de perspectivas.
As esperanças a elevavam. Com suas asas ela alcançava os lugares que a memória guardava, mas lá chegando ela descobria que tudo havia se modificado. Até no passado tudo havia se alterado.
Que lembranças eram aquelas então? Como se modifica o que já foi?
Tudo ilusão? Ela se perguntava aflita.
Não. Havia guardado um mundo dentro de si e ele estava intocado.
As asas não o alcançavam, porque estavam muito frágeis. Ia até um determinado ponto e sabia que existia algo que ficara guardado muito além de onde ela podia chegar.
Mas seu coração de garça triste sabia que existia e que o voo se tornaria mais ousado um dia.
Havia algo que a impedia de alcançar o que buscava, mas aos poucos ela descobria que haveria um tempo novo. O tempo das asas de águia. Um voo além da imaginação.

Um mergulho fundo dentro do próprio coração.

sonia delsin 


FLORES AZUIS


As flores murchas naquele vaso lascado tocaram meu coração.
Eu o quis tocar, mas um olhar me impediu.
A velha na porta me olhava intensamente.
Eu a conhecia?
Não me recordava de tê-la visto, mas os olhos dela me diziam que éramos conhecidas sim e que não devia tocar o vaso.
Aquelas flores azuis sobre a mesa me doíam.
Podia jogá-las e substituir por algumas rosas vermelhas.
Eu havia visto no jardim uma penca delas.
O olhar me dizia que não.
Fiz um gesto em direção a elas e o olhar tornou-se duro.
Então eu me lembrei quem era ela.
Quis caminhar em sua direção, mas as minhas pernas não obedeciam.
O tempo havia colocado uma barreira entre nós duas.
Olhando-a mais eu descobri que a barreira sempre existiu.
Já não sabia se me doía mais as flores murchas ou a lembrança.
Quis me afastar e descobri-me impossibilitada de caminhar em qualquer direção.
Esperei um tempo e ela se foi. Não voltei a olhar as flores.
Procurei o jardim e as rosas vermelhas já não estavam lá.
Eu me sentei num banco sob uma frondosa árvore e chorei.
Pelas flores azuis, pelas rosas e pela velha que recordei...

sonia delsin


UMA ESTRADA DO PASSADO


Vou fechar meus olhos e esperar um pouco.
Dizem que o passado deve ficar enterrado.
Que devemos pensar em seguir em frente.
Eu sei disso, mas vou trazer até aqui uma estrada do
passado... uma coisa boa que guardo. Momentos especiais.
Estive recordando por um instante um tempo que marcou minha
alma.
Íamos na carroça, meu pai que a guiava, minha irmã e eu.
Nós duas sentadinhas no fundo da carroça. O vento no rosto.
Conversávamos.
Parece que sinto de novo o perfume das flores de laranjeira.
É algo muito especial.
Lembro que num determinado trecho do caminho pedi a meu pai
que parasse e colhesse umas flores de uma árvore que
chamávamos de Santa Bárbara.
Eram umas flores tão delicadas.
Como adorava a delicadeza delas!
Murchavam com facilidade, é verdade.
Eu desejava levar para casa um pouco da beleza e não entendia
naquele tempo que existem belezas que não se transportam.
Elas possuíam todo aquele encanto na árvore.
Mas para me contentar meu pai parava, apanhava e me entregava
um buquê delas.
Estive recordando como ele adorava suas meninas.
Não dizia. Com palavras não. Mas eu sabia, sempre soube. Seus olhos viviam carregados de ternura.
Ele nos amava intensamente.
E se foi.
As lembranças ficaram.
Fechando os olhos eu volto a ser a garotinha frágil que se
encolhia no cantinho.
A vida deu tantas voltas. Tantos sonhos, planos, tantas
realizações. Tantas ilusões e desilusões.
Descobri que o tempo nada significa. Que a menina vive.
Sonha, deseja. Ainda sente o cheiro de mato, o vento nos
cabelos, ouve o tropel do cavalo.
Deseja o carinho do pai. As flores tão fugazes.
Deseja caminhar pelos caminhos do passado e reviver momentos
que se imortalizaram.
Deseja o tempo que já passou.

sonia delsin 


SETE OU OITO


Eu não me recordo se estava naquele dia completando sete ou oito anos. O que me lembro bem foi que fiquei vendo todo o preparativo da festa. Beliscando uma coisa ou outra, levando uns petelecos e correndo de um lado para o outro feliz da vida.
Afinal era a aniversariante. Aquele dia era inteiramente meu. Minha mãe não saía da volta do fogão preparando os quitutes.
Era tão gostoso quando os convidados chegavam. Tantas crianças, brincadeiras. Ah! Nestas horas eu nem pensava mais em comer, já estava enjoada de provar uma coisa ou outra; além do mais não queria perder um minuto. Era a hora das brincadeiras, do pega-pega, do pique, do passa-anel, de saltar amarelinha, de dançar em roda. Tantas brincadeiras mais.
Guaraná caçulinha! Toda vez que vejo uma festinha infantil eu me recordo do sabor daquela guaranazinha.
Era um tempo bom demais para se perder, era o tempo das ilusões.
Pois bem, neste dia eu fiz uma travessura e tanto. As pessoas da família nunca esqueceram.
Não sei porque cargas d’água eu fiz aquilo.
Estava tudo bonitinho. Não era como as festas de hoje em dia. Era uma coisa bem mais simples, mas os comes e bebes eram fartos; havia sucos coloridos além dos guaranás.
Minha mãe sempre foi caprichosa e enfeitava a sala e a varanda com muitas flores, toalhas de crochê. Ela encerava o chão e o deixava brilhando como um espelho. Não se importava que depois iriam sujar tudo. Ela queria que quando as pessoas chegassem encontrassem tudo numa lindeza só.
A hora da festa de aproximava e os convidados logo chegariam.
Então eu aprontei uma arte danada de feia. Eu me escondi embaixo da cama e demoraram em me encontrar. Foram uns primos que me acharam lá e eles insistiam muito para que eu me levantasse e fosse receber os parabéns de todos.
Sem a aniversariante a festa não podia começar. Não tinha sentido.
Eu me recusava a sair dali e como era o dia dos meus anos, minha mãe não queria ralhar comigo. Meu pai nem apareceu no quarto.
Os primos e primas me puxavam. Minha doce mãezinha Lina me agradava e tentava me levar para a sala.
Com muito tato e muito carinho ela conseguiu me arrastar para lá e os convidados me receberam com tantos beijos e abraços. Logo eu já havia me esquecido que tentara me esquivar da festa.
Não me recordo o que levou a agir daquela forma, mas não esqueço o cheiro de festa que existia no ar, os bolos que minha mãe preparava de uma forma tão diferente. Ela colocava-os em panelas e colocava brasas sobre as tampas para cozinhar a massa e ficavam uns bolos tão saborosos.
O sabor e o cheiro ficaram impregnados em mim, como o gosto dos docinhos que ela fazia e enrolava passando no açúcar. Recordo-me que depois os colocava para secar ao sol.
Estas lembranças parecem carícias ao meu coração. Quando ele está machucado eu consigo trazer aqueles dias para os dias de hoje e a menina vem acariciar a mulher madura. Na verdade a mulher guardou no peito os sonhos da menina e ela ficou morando num ninho que nunca se desfez.

sonia delsin 


UM SIMPLES PAPO


Algumas vezes resolvo deixar o carro na garagem e saio de circular. Percorro todo o centro comercial da cidade, vou aos bancos quando preciso, vejo vitrines e depois me dirijo a um ponto de ônibus. Existe um que particularmente gosto de ficar.
Nele há uma senhora de origem nordestina que fica o tempo todo fazendo crochê e vendendo as peças já concluídas. Ela tem um varal estendido com muitas peças e os valores afixados sobre elas.
Este ponto fica defronte a um banco e está localizado num lugar bem movimentado da cidade.
Também ali costuma ficar um rapaz gaúcho.
O rapaz vende doces (canudinhos). É um rapaz simpático e vive a conversar com a senhora nordestina e também com todas as pessoas que estão a esperar o circular. Ele fica quase todo o tempo andando de um lado para o outro oferecendo seus docinhos.
Eu os vejo e fico a observar tudo porque gosto das pessoas. Gosto de ouvi-las conversando.
Ela já é uma senhora idosa e muito conversadeira.
Hoje me sentei ao seu lado e ela puxou papo comigo. Eu gosto de ouvir, gosto mesmo.
Fiquei ouvindo-a e ela me contou que muitas vezes passa o dia todo sentada sobre uma almofadinha naquele banco de concreto, e não vende uma peça sequer.
O rapaz vende os doces. Bem, os doces são baratos, as pessoas estão famintas muitas vezes, e acabam comprando. Já as belas peças são mais difíceis de serem vendidas.
Ela começou a me contar coisas. Contou que gosta do movimento do lugar. Que se sente bem em estar entre as pessoas, que gosta de conversar.
Ficamos naquele papo furado, fiquei olhando-a e pensando no que deve ter passado. Nos filhos que teve. Na casa que fica o dia todo sozinha, sem a dona...
São coisas da vida.
Pensei que na sua idade muitas mulheres já nem saem de casa sozinhas.
A vida se apresenta a cada pessoa de uma forma diferente.
É necessário que estejamos entre as pessoas, conversando com elas para entendermos melhor os seres humanos. Muitas vezes pessoas simples como esta senhora e este simpático rapaz de olhos azuis nos trazem muitas respostas. Elas nos abrem os olhos para a realidade.
Um papo informal pode nos fazer tanto bem quando nos propomos a ouvir com o peito aberto, com uma vontade verdadeira de alcançar a realidade do outro.
O que parece ser uma simples conversa muitas vezes não é. Principalmente se depois dela nos pomos a refletir...


sonia delsin


A HISTÓRIA DE UM VENCEDOR

Eu sei que hoje ele é um homem.
Um homem apaixonado. Pronto para assumir um casamento. Disposto a traçar um caminho ao lado de sua amada.
Comum. Tão comum tudo isso.
São coisas corriqueiras. Todo dia há pessoas se apaixonando, se casando. Constituindo família.
Então por que toco neste assunto como se houvesse algo diferente no ar?
E há!
Eu o olho e em todo seu ser vejo Deus pulsando.
É um milagre em vida. O milagre que Deus me colocou no meu ventre, nos meus braços, em minha vida.
Um dia eu tive medo. Um medo tão grande do futuro.
Tremi por dentro.
Foi o dia mais terrível de toda minha existência.
Eu já havia passado por muitas. Nós havíamos.
A morte já o havia rodeado, quase o levara. Mas naquele dia algo muito doloroso acontecera.
Dr. Cláudio me chamou em particular e falou baixinho. Aquele médico oriental de voz quase inaudível e olhos bons não conseguia disfarçar e logo eu percebi que tinha algo muito difícil a me dizer.
─ Mãe, seu filho corre grande risco de perder por completo a visão. Algumas cirurgias devem ser realizadas o mais breve possível. Ele já fica internado para os exames pré-operatórios.
Meu menino já havia passado por tanta coisa. A visão não, meu Deus! ─ eu pensei.
Quanto sofrimento!
Ninguém pode avaliar quanto.
Dias depois, ao retirar as vendas que cobriam aqueles olhos maravilhosos, meu coração batia descompassado.
─ Mãe, estou vendo as horas no relógio. Vejo as horas perfeitamente. Melhor do que enxergava antes.
Tanta luta, tanta. A recuperação tão lenta.
Nós guardamos dentro do coração nossos medos. Só os pais sabem guardar no coração suas dores e rezar silenciosamente.
Aos poucos a recuperação se fez notar. Nada acontece do dia para a noite.
Meu menino fez-se homem e que homem! Um gigante, um gigante amoroso.
A visão recuperou-se de tal forma que só podemos dizer que foi um milagre.
Aos poucos ele foi conquistando tudo que desejou a vida inteira.
E nós ao vê-lo tão realizado e feliz só podemos olhar para os céus e dizer obrigada a um ser que é muito superior a todos nós. Um ser que conhece o coração de cada homem que vive sobre a terra.
Olhando-o só podemos pensar numa palavra: Vitória.
É um vencedor. Venceu a morte e as adversidades da vida. Venceu um caminho de espinhos e hoje sorri feliz por todos os poros. É o próprio retrato da felicidade.
E uma mãe só consegue ser feliz quando os filhos também o são.
Ó, meu vencedor, nesta luta eu estive todo o tempo presente. As armas que lhe ofereci a todo instante foram o meu amor e minha coragem de estar ao seu lado sempre. Não pude sofrer suas dores em seu lugar, mas elas doeram tanto em mim quanto em você.
E hoje meu coração também transborda de alegria com a sua alegria.

sonia delsin


ISTO NÃO SE FAZ...

Estes dias aconteceu um fato que muito me chateou. Algo que não deveria jamais acontecer e que vive acontecendo, infelizmente.
Bem, eu vou contar tudo para que vocês entendam porque me entristeceu e também me revoltou.
Uma senhora bem idosa, na verdade ela já passou dos oitenta e cinco anos e um senhor de idade aproximada conviveram vinte anos numa relação muito carinhosa.
Ela enviuvara muito jovem e se dedicara aos sete filhos. Tivera uma vida difícil e um dia reencontrara um antigo namorado (na verdade ele fora o seu primeiro namorado), que também estava viúvo. Resolveram se unir e viveram longos anos harmoniosamente.
Dava gosto de vê-los juntos. Eram tão companheiros.
Ela era na época que se reencontraram uma mulher robusta ainda, de sorriso sempre pronto e ele um senhor acanhado. Formavam um grande contraste, mas na convivência eram maravilhosos.
Sempre a quis bem e senti desejos de lhe beijar e apertar as bochechas quando me aproximei dela, porque ela sempre foi uma pessoa deliciosamente autêntica.
O sorrisinho dela e os olhinhos me inspiraram sempre muita ternura.
Eu os via conversando e pensava como o mundo pudera providenciar um reencontro entre dois namorados.
Os anos passaram e eles envelheceram juntos. Conversavam tanto. Dava gosto de se ver.
O passar do tempo foi enfraquecendo-os e adoecendo-os.
Um dia fiquei sabendo que ela não andava nada bem de saúde. A dele também não andava lá estas coisas.
Ela foi piorando, piorando...
A mulher trabalhadeira e organizada já não dava mais conta dos trabalhos domésticos.
Também me contaram que havia uma mulher ajudando-a na limpeza da casa. Ela fazia questão de cozinhar ainda.
Depois soube que os dois não poderiam mais ficar sozinhos, porque um não podia mais ajudar o outro. Ela estava necessitando de cuidados especiais.
Aí é que as coisas começaram a acontecer de uma forma que me desagradou, me enervou e me entristeceu.
Os idosos deviam ser mais respeitados, eu penso.
Os filhos dela decidiram separá-los. Eles se propuseram levá-la para a casa de uma filha e avisaram a família dele que devia buscá-lo.
Segundo me contaram, ela não queria ir, sentou-se numa cadeira e disse que não sairia de seu cantinho. Que só a levariam à força.
Sei que por fim a levaram e o filho dele também o levou para sua casa em outra cidade.
Dias depois ela adoeceu seriamente e esteve hospitalizada. A partir de então não reconhece as pessoas, não se levanta mais e está com a filha. Enquanto ele está vivendo com o filho, a nora e os netos.
Eu penso que sua mente se recusou a aceitar esta forçosa separação e o seu estado de saúde piorou tão drasticamente porque o seu ser quis fugir da realidade.  Ela se recusou a aceitar uma situação que lhe impuseram e não aguentando a distância que a submeteram do companheiro de tantos anos, o afastamento da casa que ela sempre amou, sua mente apagou as lembranças todas.
É doloroso tudo isto. Não gostaríamos de ver as pessoas agindo desta forma, mas acontece e ficamos impotentes diante dos fatos.

Mas que dentro da gente dá uma vontade grande de gritar, isto dá. Uma vontade de ver tudo modificado, uma vontade de ver o ser humano agindo de uma forma mais humana. 

sonia delsin


O SUSTO


Éramos várias moças a morar naquele apartamento.
A vida e as circunstâncias nos aproximaram de alguma forma. A solidão e nossas carências nos levavam a sermos muito unidas.
Muito conversávamos e muito ríamos quando estávamos reunidas.
Uma das moças que dormia no mesmo dormitório que eu, tinha tios morando ali mesmo naquela rua que morávamos.
Ela optara por morar só por razões que eu desconhecia e respeitava. Nem vem ao caso agora.
Sempre pude sentir o quanto ela os amava, principalmente ao tio que se encontrava muito doente.
Pela manhã fomos visitá-lo e me recordo que sua tia me adorou. Não parava de falar de meus olhos. Ela adorava pessoas de olhos claros.
Fiquei até um pouco tímida lá.
Era um sábado, e na parte da tarde nos sentamos nas cadeirinhas de ferro, no meio da cozinha.
Muitas vezes ficávamos reunidas lá.
Estávamos conversando quando um barulho ensurdecedor se fez sobre o tampo da mesa de ferro. Era como se um enorme murro tivesse sido dado ali.
Nos levantamos bem depressa e ficamos observando a mesa. Nesse meio tempo a Dona Angelina gritou chamando esta minha amiga que tinha o tio doente.
Saímos as quatro moças na pequena sacada para ver o que estava havendo. E a mulher já foi falando:
─ Claudete, é o seu tio. Acabou de falecer. Sua tia me ligou e está desesperada. Vá para lá correndo menina.
Minha amiga começou a chorar. Nós a consolamos e passamos pela cozinha. Olhamos a mesinha de ferro. Nós a ajudamos a se arrumar um pouco e a acompanhamos até a casa do tio falecido.
A Claudete não parava de repetir:
─ Foi ele. Ele quis se despedir...


sonia delsin